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Quando a Medicina encontra a Literatura

Durante muito tempo, enxerguei a Medicina e a escrita como caminhos paralelos.

Em um deles, havia a ciência, o diagnóstico, o estudo permanente e o compromisso com o cuidado. No outro, a sensibilidade, a reflexão e o desejo de transformar experiências em palavras.

Hoje compreendo que nunca foram dois caminhos.

Sempre foi um só.

A Medicina me ensinou a escutar aquilo que nem sempre aparece nos exames. A perceber que, por trás de um sintoma, existe uma história; por trás de uma dor, uma pessoa; e por trás de cada consulta, uma oportunidade de acolhimento.

A literatura ampliou essa escuta.

Escrever tornou-se uma forma de permanecer ao lado das pessoas por mais tempo do que uma consulta permite. Um livro continua dialogando com o leitor quando as páginas são fechadas. Ele oferece companhia, provoca perguntas e, muitas vezes, desperta a coragem necessária para iniciar uma mudança.

Foi dessa união que nasceram meus livros.

Eles não pretendem substituir o conhecimento científico, nem oferecer respostas prontas. Procuram construir uma ponte entre a ciência e a experiência humana, entre o que pode ser medido e aquilo que apenas pode ser sentido.

Como médica, aprendi que o cuidado começa pela escuta.

Como escritora, descobri que algumas palavras também cuidam.

Talvez por isso meus livros tragam histórias, reflexões e convites à presença. Eles nasceram da convivência com pessoas que enfrentam dores visíveis e invisíveis, ruídos externos e silêncios interiores, desafios que muitas vezes não encontram espaço para serem compartilhados.

Escrever passou a ser uma extensão natural do consultório, da sala de aula e da própria vida.

Não escrevo apenas para transmitir conhecimento.

Escrevo para criar encontros.

Encontros entre ciência e sensibilidade.

Entre razão e emoção.

Entre quem escreve e quem lê.

Acredito que a Medicina e a Literatura compartilham uma mesma essência: ambas começam quando alguém se dispõe a escutar verdadeiramente o outro.

É nesse espaço de presença que o cuidado se fortalece, o conhecimento ganha significado e a transformação se torna possível.

Se minhas palavras conseguirem fazer com que uma pessoa se sinta compreendida, acolhida ou inspirada a olhar para si com mais gentileza, então a escrita terá cumprido seu propósito.

No fim das contas, continuo exercendo a mesma missão.

Apenas encontrei uma nova forma de cuidar.

25 de julho | Dia Nacional do Escritor

Neste ano, celebro esta data com gratidão:
pela acolhida de Sem Silêncio,
pela honra de integrar a Academia Brasileira de História e Literatura,
e pela certeza de que cada livro é apenas o início de uma conversa que continua na vida de quem lê.

 

 

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