A entrevista entre Marina de Araújo, alagoana formada em Direito, e sua mãe, Dra. Mônica Rufino, médica especialista em Homeopatia e Pediatria, apresenta um relato sobre os desafios, aprendizados e estratégias familiares na educação e inclusão de uma pessoa com deficiência visual congênita. A conversa revela não apenas a trajetória de Marina desde o nascimento, mas também reflexões importantes sobre autonomia, estímulo familiar e convivência social com pessoas cegas.
Caminho de crescimento humano e moral
Desde o início da entrevista, Mônica se apresenta e contextualiza sua relação com a filha, destacando que a experiência de criar uma criança com deficiência visual não deve ser vista apenas como um conjunto de dificuldades, mas também como um caminho de crescimento humano e moral para toda a família. Para ela, cada pessoa nasce com um propósito e com a possibilidade de desenvolver virtudes ao longo da vida. Nesse sentido, Marina é apresentada como alguém que enfrenta desafios constantes, mas que busca superá-los continuamente.
A percepção de que havia algo diferente com a criança surgiu logo após o nascimento. Mônica percebeu que a filha não acompanhava visualmente os estímulos, apesar de reagir à voz das pessoas. A família então iniciou uma investigação médica, que incluiu consultas com especialistas em São Paulo. Após diversos exames, foi diagnosticada uma amaurose congênita, condição caracterizada pela perda severa da visão desde o nascimento. Trata-se de uma doença rara, que afeta o funcionamento da retina e pode provocar cegueira desde os primeiros meses de vida.
Diante do diagnóstico, a família foi orientada a estimular intensamente os sentidos da criança. Uma pedagoga explicou que, embora Marina não enxergasse pelos olhos, poderia “ver” por meio do tato e de outros estímulos sensoriais. A partir dessa orientação, os pais passaram a organizar o ambiente doméstico de modo favorável ao desenvolvimento da criança. Objetos com cores fortes e contrastantes, tapetes sensoriais, brinquedos com som e materiais com diferentes texturas foram incorporados ao cotidiano da casa. Essas práticas tinham o objetivo de estimular audição, tato e percepção espacial.
Equívoco comum sobre pessoas com deficiência visual e os demais sentidos
Mônica também ressalta que existe um equívoco comum na ideia de que pessoas cegas possuem automaticamente sentidos “mais aguçados”. Segundo ela, o que ocorre na maioria dos casos é uma maior consciência e uso desses sentidos. Como a visão não está disponível, audição e tato passam a ser mais utilizados no dia a dia, desenvolvendo-se pela prática constante.
Outro aspecto importante abordado na entrevista é o papel da comunicação. Para uma pessoa que não enxerga, a interação com o ambiente depende muito da fala e da presença sonora das outras pessoas. Marina relata que, muitas vezes, alguém entra ou sai de um ambiente sem se apresentar, o que pode gerar situações de exclusão involuntária. Por isso, um gesto simples — aproximar-se e dizer o próprio nome — é fundamental para garantir respeito e inclusão.
Desafios constantes, porém superados no dia a dia
A entrevista também discute desafios práticos da vida cotidiana, especialmente a mobilidade urbana. Mônica destaca que a locomoção em cidades brasileiras pode ser bastante difícil para pessoas com deficiência visual, devido à presença de buracos, obstáculos e irregularidades nas calçadas. Mesmo com o uso da bengala, caminhar com segurança exige atenção constante. Apesar dessas dificuldades, Marina conquistou gradualmente maior autonomia, utilizando aplicativos de transporte, realizando compras e organizando suas atividades de forma independente.
Autonomia x Superproteção
A autonomia, aliás, é um dos temas centrais do relato. Mônica defende que a família deve oferecer apoio e proteção, mas evitar a superproteção. Para ela, impedir a pessoa com deficiência de experimentar o mundo pode gerar insegurança e dependência. Assim como qualquer outra pessoa, quem possui deficiência precisa enfrentar desafios, cometer erros e aprender com as próprias experiências.
No ambiente doméstico, pequenas adaptações também são essenciais. Mudanças na posição de móveis ou objetos devem ser comunicadas previamente, pois a organização espacial funciona como referência para a orientação da pessoa cega. Quando essas alterações são explicadas e demonstradas, o cérebro consegue rapidamente se adaptar ao novo arranjo do espaço.
Estímulo educacional e papel da família
Outro ponto relevante abordado na conversa é a importância do estímulo educacional desde a infância. Marina foi incentivada desde muito cedo a reconhecer letras, números e formas por meio de materiais táteis. Esse contato precoce com a linguagem contribuiu para seu processo de alfabetização e para o desenvolvimento de habilidades comunicativas. Posteriormente, ela se formou em Direito e passou a trabalhar também com audiodescrição, atividade que consiste em descrever verbalmente elementos visuais de obras artísticas ou apresentações para pessoas com deficiência visual.
A entrevista termina com uma reflexão mais ampla sobre o papel da família. Para Mônica, o princípio fundamental no tratamento de uma pessoa com deficiência deve ser o amor aliado ao respeito pela autonomia. Isso significa oferecer apoio, reconhecer as necessidades específicas e, ao mesmo tempo, permitir que a pessoa construa sua própria trajetória. Segundo ela, o estímulo adequado pode fazer grande diferença no desenvolvimento e na autoconfiança de quem enfrenta limitações sensoriais.
Assim, o relato de mãe e filha demonstra que a inclusão não depende apenas de recursos técnicos ou políticas públicas, mas também de atitudes cotidianas de compreensão, comunicação e respeito. A experiência familiar apresentada na entrevista evidencia que a deficiência visual não impede uma vida ativa e produtiva, desde que haja estímulo, adaptação e abertura para aprender com as diferenças.
Assista a íntegra na entrevista! Acesse:
https://www.youtube.com/watch?v=YFnNkIIcuac
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